O jornalista Sotnas Fontoura, natural de Baixa Grande e filho do falecido ex prefeito daquele município, Amado Fontoura, completa nesta Sexta-feira (25), 44 anos. Para marcar este importante acontecimento, o portal Caboronga Notícias traz uma reportagem especial escrita por ele há 10 anos para o Jornal da Região de sua propriedade.

Acompanhe abaixo:


Marina Crisálida acordou no dia 26 de maio e não encontrou o sol. O dia nasceu chuvoso e atrapalhou os seus planos, e eu ganhei uma entrevista. Marina cata latinhas de cerveja e de refrigerante no centro de Salvador. Eu procuro uma pessoa para dar um testemunho de fé, tema da reportagem especial do mês de julho do Jornal da Região.

Nos encontramos embaixo de um ponto de ônibus fugindo da chuva, fico surpreso com determinação da menina, enquanto a chuva não passa ela conta as latas que tinham coletado na rua, das 7hs às 10hs já haviam mais de 40 latas. Tentando puxar conversa pergunto: a chuva atrapalha? A pergunta tola teve uma resposta rápida e surpreendente: “é verdade, quando chove a gente encontra menos latinhas na rua, as pessoas bebem mais quando está calor, mas também menos pessoas procuram latinhas quando chove, aí as que procuram ganham mais”.

O dia nublado prejudicou o seu planejamento diário, mas não abalou seu sonho, mesmo com a promessa da chuva ela pretende trabalhar. “E que sonho em melhorar de vida, comprar uma casa para mim, eu conheço gente que está bem de vida trabalhando na rua”.

Quando fala do sonho da casa a voz ganha uma estridência e os olhos um fogo de fé.

-É, parece que eu encontrei a pessoa que eu procurava para dar um testemunho de fé.

Marina Crisálida é uma garota de 17 anos que tinha tudo para dar errado: nasceu no bairro da paz, um dos mais miseráveis de Salvador, com alto índices de violência, é negra, órfão de pai e mãe e carrega no braço direito as cicatrizes de uma tentativa de estupro. No entanto afirma que vai conseguir vencer. “Eu sei que a vida é dura, mas eu sei que eu posso, o que eu quero é pouco”, com a convicção inabalável com que fala também não seria difícil conseguir se ela quisesse muito.

Com dinheiro da venda de latinhas Marina comprou o material escolar, ela estuda a 7ª serie. “Tudo o que a professora pediu eu comprei “. Catando latinhas desde os 13 anos Marina já adquiriu televisão, geladeira, som e viajou para Valença no último verão. “Tudo que eu quero eu consigo”. A frase soa como uma provocação a uma pergunta inevitável.

-E como você consegue tudo o que quer?
-Eu tenho fé.
-De onde vem sua fé?
-Já nasceu comigo. Eu só sei dizer que tudo que eu consigo ver em minha mente é porque eu conseguirei realizar. Eu lembro que quando criança considerava que as coisas estavam perto quando eu conseguia ver. Era assim, se minha mãe mim mandava comprar alguma coisa numa mercearia e estava ao alcance dos meus olhos, mesmo se fosse longe eu achava perto. Eu só conheci a lagoa do abaete por que de longe eu via as dunas e pensava: se eu consigo ver é porque é perto, mas não foi tão perto assim, eu andei mais de 2 horas para chegar na lagoa. Mas eu tinha fé que chegaria lá.

-Quem te ensinou a ter fé?
-Fé não se ensina.
-Você tem religião?
-Acredito em Deus.
-O que você quer de Deus?
-Uma casa.
-Acredita que ele vai te dar?
-Eu já a vejo em minha mente.

A CIÊNCIA DA FÉ
Marina aprendeu nas ruas uma importante lição de fé que lhe faz olhar os desafios com coragem e o futuro com o fogo da esperança mesmo tendo consciência do inverno que se avizinha.

Marina vai aprender na escola que a ciência é um substantivo feminino que significa “conhecimento” e que as coisas e os fenômenos só são aceitos quando são sujeitos às provas. Nesse momento será inevitável que se instaure na cabeça de Marina um grande conflito, ela descobrirá que a fé que aprendeu na rua é inimiga da ciência que aprendeu na escola, quando isso acontecer, Marina nem imagina que mas estará reeditando uma batalha que durante séculos dividiu os homens. A ciência x fé.

E agora Marina? Em que você acredita? Na aprendizagem das ruas ou da escola?
Se Marina acreditar nos dois e achar que é possível explicar a fé pela ciência não estará cometendo uma incongruência existencial tentando conciliar o irreconciliável, como já foi pregado na idade média, pelo contrário estará em plena sintonia com o que é pregado na idade pós-moderna: a ciência da fé.

Muitas são as iniciativas de pesquisadores imbuídos em conciliar a fé com a ciência. Tomás de Aquino se destaca como percursor deste pensamento quando apresenta Deus para fundamentar verdade da fé através da razão. Utilizando-se de argumentos racionais que têm como premissa a observação da realidade, São Tomás procura provar a existência de Deus. Para Aquino, Deus existe porque: existe movimento no universo; no mundo, os efeitos têm causa.

O valioso dessa aproximação da ciência com a fé é que não existe nenhuma descaracterização da natureza nem da fé, nem da ciência. Se estão entrando em estado de harmonia é porque se explicam. O cardiologista americano Herbert Benson, da Universidade de Harvad, realizou um estudo com pacientes que desenvolveram técnicas de meditação para controlar suas doenças coronárias crônicas. Depois de cinco anos Benson percebeu que os pacientes que meditavam disciplinarmente todos os dias apresentaram recuperações superiores às dos pacientes que desprezava a meditação.

Os pacientes que meditaram com determinação disseram que se sentiram na presença de um “ser superior”. O médico acredita que as pessoas que creem com afinco produzem uma substancia que favorece o sistema imunológico. Substancia está, a qual ele batiza de “hormônio da fé”.

Essas descobertas vêm ao encontro de pesquisas que considera a fé um fenômeno biológico, em vista que exerce um importante papel para a preservação da espécie. As estruturas do cérebro que controlam as ações para preservação da espécie são o sistema límbico (mais responsável pelas emoções) e o sistema de produção de substancia no organismo, aí incluído o sistema glandular endócrino. A esse conjunto se denomina Sistema de Autopreservação e preservação da espécie (SAPE). E a fé atua nesse sistema.

A CONSCIÊNCIA DA FÉ

Quando o diabo tentou Jesus e mostrou-lhe todos os reinos e os prazeres do mundo e disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Jesus não titubeou e respondeu: Vai-te, Satanás, porque está escrito; Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás.

A história da humanidade poderia ser outra se Cristo tivesse cedido à proposta satânica. Naquele momento decisivo da sua missão, Cristo não estava protegido com a vacina divina, pelo contrário estava sujeito às fraquezas, inconstâncias e dúvidas que são inerentes a natureza humana. Ao aceitar carregar a sua cruz de madeira, as humilhações e o sofrimento em detrimento dos palácios de ouro, das ostentações e da gloria terrena ele se amparou em uma força interior tamanha que não consentia dúvida. A fé de Cristo nos projetos de Deus manteve o rumo da história e a certeza do triunfo do bem sobre o mal, seria diferente se Cristo não se impor a sua fé.

A firmeza de propósito de Jesus Cristo não é para ser admirada como algo extraordinário, porém inalcançável. É para ser almejada e alimentada, a fé é uma força que se encontra no coração de todos os homens. Jesus constantemente desafiou os homens a não apernas acreditarem naquilo em que ele acreditava, mas também a acreditarem como ele acreditava. Por isso a ordem: “Siga-me”.

A passagem bíblica que conta a história de uma mulher que padecendo de um fluxo de sangue há mais de doze anos toca a roupa de Cristo imaginando ficar sã. E ouve do mestre, a frase aliviadora: a tua fé te curou; reforça a crença de que a fé está dentro de todos e que todos devem cultiva-la e exercita-la sob pena de murchar como os músculos que não se exercitam.

Dois mil anos depois de Cristo plantar a fé verdadeira que mobiliza forças e que transforma vidas a lógica capitalista pirateia uma fé mentirosa que mobiliza negócios e que transforma a resistência de um propósito na perecividade de uma mercadoria. Hoje assistimos sobre o verniz da atuação religiosa a fé sendo transformada em moeda. O que se vê são líderes religiosos prescrevendo orações para estimular a fé como médicos que prescrevem anabolizantes para fortalecer os músculos. Escondem eles que Jesus nunca orou por dever religioso. Para ele, a prece era uma expressão sincera de atitude espiritual, uma declaração de lealdade da alma, uma demonstração da devoção pessoal, uma expressão da gratidão, um modo de evitar a tensão emocional, uma prevenção para os conflitos, uma técnica de ajustamento das dificuldades e a mobilização poderosa, dos poderes combinados da alma, para suportar todas as tendências humanas para egoísmo e o mal.

Jesus foi o maior de todos porque dotou a sua fé de consciência, e alertou como identificar os religiosos de fachada, que prescreve a fé como um medicamento e constrange quem não os consome, não consumindo, eles próprios. Vale lembrar o que falou Jesus sobre os Fariseus:
-Não procedias em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; pois atam fardos pesados e difíceis de suportar. E os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los.

A INTELIGÊNCIA DA FÉ
Nas ruas de Salvador a menina Marina vive a fé, nos laboratórios do mundo a ciência estuda a fé e nos corações dos homens Cristo irradia fé. Mas ao redor de todos um fantasma os assombra com uma fita empunhada na mão tentando cegar a fé. É incontestável os prodígios que a fé realiza e a vitalidade que proporciona aos homens quando alicerçada em uma base racional que compreende aquilo em que crê.

Pelo contrário, quando a fé é guiada pela voluntariedade imprensada caminha para o precipício do fanatismo, e aí se torna vulnerável, bastando um simples espirro para que os vírus da dúvida se instaurem em seu corpo e destrocam suas defesas.

A fé verdadeira deve se proteger com o escudo da inteligência e examinar as coisas com paciência e cuidados cirúrgicos para depois viver com explosão e de maneira destemida suas convicções. Alan Kardec, em seu livro: o evangelho segundo o espiritismo resume a fé inteligente; “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade.

Ao contrário do que muitos imaginam a fé requer estudos e aperfeiçoamentos. A bíblia define a fé como: “o firme fundamento das coisas que se esperam”, ora, mais firme será o fundamento, quanto mais se conhecer o que se espera.

Aristóteles, o gênio grego da antiguidade conseguiu com muita propriedade esquematizar anseios, preparando o terreno para que a fé se desenvolva.

Para Aristóteles antes de empreender uma busca é preciso:
1) Ter objetivos bem definido em termo de prazo, quantidade, requisitos de qualidade, enfim tudo aquilo que permita verificar se eles foram atingidos;
2) Traduzir os objetivos em imagens mentais em termos de resultados. Marina já fazia isso sem conhecer Aristóteles;
3) Colocar emoções no atingimento dos resultados, ou seja, amortizá-los. Cristo fez isso melhor que Aristóteles mesmo nascendo 323 anos depois dele;
4) Jamais duvidar que obterá os resultados, pois dúvida vem de dois se há dois caminhos, o cérebro não sabe qual seguir;
5) Estar disposto a pagar o preço.

Neste último requisito é onde se encontra o grande segredo da fé. A fé de Marina se sobressai no momento em que ela paga o preço e continua a catar latinhas mesmo com a intensa chuva, a fé de Cristo chega ao ápice no momento que ele aceita a cruz, e paga o preço de uma dívida que não era dele.

Por Sotnas Fontoura