Hoje acordei com saudades e viajei para o Amparo, a terra onde nasceu Vovô. Levei meu filho para ver as origens do seu tataravô Franscelino.

Foi uma viagem presente, mas um mergulho no tempo. Foram comigo Toin de Lalá e meu tio Raimundo Pamponet. Depois de quinze minutos, paramos na estrada de chão para olhar o Riacho da Florada. Mesmo com a seca estava lindo o sertão.

Logo após a Fazenda São Francisco, chegou o famoso Buraco do Cão. A terra seca e a paisagem árida do sertão, até o Junco não havia capim verde no chão.

Continuei na estrada vermelha, com o sol quente. Parei na Fazenda Santana, e sob o tablado estavam os porões dos escravos.

Vi o retrato da escravidão na caatinga do sertão. E seguir adiante rumo a Santa Luzia para chegar depois no Amparo. Mas as costelas de vacas da estrada fazia o carro ir devagar, com mais alguns minutos chegamos no Jenipapinho.

Lembrei das histórias dos tropeiros, nas viagens entre Baixa Grande e Santa Luzia do Lajedo. Antônio Norberto na mula levando comida para sustentar a família.

Então cheguei ao Riacho Vermelho e a Santa Luzia, e na Fazenda de Chica, lembrei das histórias de mainha. Todos dentro de um jacá, e vovô estava lá. Na mula, levando os netos na viagem de volta para casa.

O tempo é a incógnita dos mortais, e na mesma paisagem cálida do sertão, várias histórias em uma mesma memória, tudo entrelaçado pela reencarnação.

Ver de perto a igrejinha e a Fazenda Careta. De Santa Luzia, terra de vovó ao Amparo, na caatinga onde nasceu vovô, é que sou oriundo sim senhor.

Dois lugares distintos marcados por um só destino, em que Nelson e Julieta são protagonistas dessa história.

O passado também é presente e faz a cultura, despertando a identidade e o pertencimento. Estava para chegar ao Amparo , e a estrada vermelha sob o sol quente não desanimava a viagem.

Depois de nove km cheguei ao Amparo, e vi dois olhares diferentes na terra de Edite e Alice, duas mulheres que deram origem a tanta gente.

Gente que deixou o sertão, há muitos anos, mas, nele o seu coração. Nessa viagem o melhor foi o café, de antigos amigos e parentes, parece que a vida é como um trem em que o tempo vai e vem, e depois a próxima estação.

Vi a igrejinha secular do Amparo em que Nelson ia às missas quando criança rezar. Mas, as ruas estavam ainda sem calçar, exatamente como ele falava há tantos anos.

Encontrei um primo, por engano, ao bater em um porta. E foi aquela festa, regada de tamanha alegria com a viagem que fazia.

Me convidou para casa de seu pai, Zé Borrego e parece que não ia chegar, pensei em desistir, adentramos caatinga, coberta de mato e gravatá.

Mas depois de algum tempo, cheguei e Zé Borrego. Estava cortando palma para dar o gado, e logo foi nos recebendo e chamou para sentar no banco, que foi do meu bisavô.

Foi àquela alegria, em uma casa bem simples de adobe, era o Pamponet da caatinga, que ficou pelo Amparo e pelas Vendas. Gente simples de um bom coração, me disse que não tinha dinheiro e nem um tostão, mas foi logo brincando e com tanta alegria valeu a pena a viagem que fazia.

Zé Borrego pegou a sanfona e tocou Asa Branca , e uma lágrima desceu do meu rosto de homem e de criança. Nas grotas do sertão distante, poucas casas e só o mandacaru.

Mas a hora estava chegando e tinha que retornar para almoçar em Santa Luzia na casa da prima Noinha. Foi um banquete com rabada, feijão, pirão e galinha.

Visitamos vários parentes, a cada casa uma recepção calorosa, como o sertanejo é acolhedor, e fomos de volta para casa dando até breve a terra dos meus avós, na caatinga deste sertão, de Macajúba e do Camisão.

Autor: Bruno Pamponet Kuhn Pereira