quinta-feira, maio 30, 2024

Alemanha despede-se da energia nuclear em tempos de incerteza energética

Em 2011, após a catástrofe de Fukushima, a decisão do Governo da conservadora Ângela Merkel foi aprovada por ampla maioria no parlamento alemão – com 513 votos a favor e 79 contra -, mas a incerteza causada pela guerra na Ucrânia reacendeu o debate sobre uma forma de energia que, até hoje, gerava 5% da eletricidade consumida na Alemanha.

O fim da operação dos três últimos reatores ainda em funcionamento – Isar 2, Neckarwesthiem 2 e Emsland – estava inicialmente previsto para 31 de dezembro de 2022, mas o executivo presidido pelo social-democrata Olaf Scholz atrasou a sua concretização em três meses após os testes de ‘stress’ a que foi submetido o sistema elétrico ter revelado vulnerabilidades, pouco antes do inverno.

Ainda assim, e já na reta final da paralisação, as organizações industriais alemãs alertaram sobre as possíveis consequências para um setor penalizado pelo elevado custo da eletricidade, enquanto a oposição democrata-cristã, assim como os parceiros liberais do Governo, propuseram várias fórmulas para adiar a desconexão dos reatores.

Por sua vez, cerca de duas dezenas de cientistas, entre os quais dois prémios Nobel, apelaram, na sexta-feira, à manutenção das três últimas centrais em funcionamento para atingir os objetivos climáticos, dado o aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2) provocado pelo maior consumo de carvão no ano passado, enquanto uma sondagem encomendada pela televisão pública ARD revelou que 59% dos alemães rejeitam, atualmente, o abandono da energia nuclear.

Em declarações à agência espanhola Efe, o especialista em mercado de energia Jonas Egerer explicou que a situação atual se deve, em parte, ao facto de, depois de 2011, o Governo não ter tomado medidas para uma transição para um sistema totalmente renovável, tendo antes concebido as centrais a gás como ponte tecnológica de longo prazo para o fornecimento de eletricidade, aceitando assim uma crescente dependência do gás russo.

O professor da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nürnberg destaca que a decisão de última hora de prorrogar por três meses a vida útil dos reatores se deveu, principalmente, ao baixo rendimento das centrais hidrelétricas em 2022, mas, na sua opinião, “com os devidos preparativos” não há riscos de abastecimento para o próximo inverno.

No entanto, alertou que, em determinados cenários, sobretudo se o gás encarecer, a redução da oferta poderá aumentar os preços da eletricidade no mercado grossista alemão, pelo que o custo final e a utilização adicional de combustíveis fósseis “podem variar fortemente com base em vários fatores de enquadramento”.

Já a especialista em energia Anke Herold está mais confiante em relação ao futuro: “Em geral, o fornecimento de eletricidade na Alemanha em 2023 é muito seguro e a produção que se perde das centrais nucleares pode ser compensada sem problemas”, disse à Efe.

A diretora do centro de pesquisa independente Öko-Institut acrescenta que “é improvável que as emissões de gases de efeito de estufa voltem a aumentar na Alemanha, como no ano passado, já que a compensação será feita principalmente com base em energia renovável”.

Segundo detalha, os três reatores ainda em operação geraram um total de 33 terawatts/hora em 2022 e, nesse ano, as novas centrais eólicas e fotovoltaicas instaladas produziram 20 terawatts/hora adicionais, aos quais outros 13 serão adicionados em 2023, o que compensa a lacuna deixada pela energia nuclear.

Adicionalmente, Herold argumenta que o excedente na produção de eletricidade em 2022, de 26,3 terawatts-hora, quase igualou o volume gerado pelos três reatores e, se tal não bastasse, as centrais que trabalham com combustíveis fósseis têm uma capacidade instalada superior à que está a ser utilizada atualmente.

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