Bahia: terra de vira latas musicais?

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Em um simples passeio de escuna pela Baia de Todos os Santos, resolvi registrar uma angústia que há muito vem me inquietando: Seremos nós baianos um povo com um sentimento de vira latas musicais? explico.

Entendendo a música como uma das manifestações artísticas mais “visíveis” e representativas de uma cultura, através dela podemos nos revelar ao mundo.

No Estado de Michigan, EUA, durante 60 dias, ouvindo rádio (diariamente) e frequentando bares e boates não ouvi uma única música que não fosse aquela produzida em língua inglesa, raras exceções como boates exclusivas para músicas latinas.. Apesar desse bairrismo, o povo americano está dizendo o que eles produzem, o que eles gostam, se identificam e se afirmam em sua produção musical.

Apesar dos clichês, se falarmos no Estado de Goiás, lembraremos da música sertaneja, do Pará o carimbó, Recife o frevo, Paraíba o forró, Rio de Janeiro o samba….e da Bahia, dentre tantas manifestações musicais possíveis temos aqui não uma música mas um movimento musical representativo de um modo de ser e viver de nosso povo, o Axé!
Este movimento se compõe de uma variedade infinita de ritmos e letras sem qualquer linearidade mostrando sua riqueza e versatilidade num processo de retroalimentação permanente. No axé, digo, não há estaticidade!

Pois bem, estas músicas identitárias, deveriam está sendo executadas nos 4 cantos da cidade: bares, restaurantes, consultórios, rádios, tvs, ônibus e embarcações num movimento de autoafirmação tendo a oportunidade de nos apresentar ao mundo através da música de rica sonoridade, ritmo e muita alegria e energia positiva.

Ao invés disso, estas mesmas instituições (excetuando-se a Educadora fm e Tve), optam em baixar a cabeça e obedecerem cegamente o que a indústria fonográfica determina qual a música deve ser executada e vendida no momento. Esta não tem nenhum tipo de preocupação com identidade, povo, empoderamento e cultura pois querem vender.

Voltando ao passeio de escuna, fiquei a refletir o que aqueles turistas (nacionais e internacionais) poderiam está pensando: atravessaram oceanos, vieram de longe para ouvirem as mesmas músicas de seus países, cidades e Estados de origem? o que há de novo aqui? em plena Baia de todos os Santos, carregada de Axé, e numa trilha sonora de músicas em inglês (não prego a não execução mas em proporções menores) e sertanejo num processo de sentimento de vira lata sempre achando que tudo que é nosso é menor numa tentativa patética de agradar subservientemente ao turista. Mas, agradar, é mostrar o que temos, nosso modo de ser e enxergar o mundo, nossa energia, nosso Axé, afinal, se for pra saírem de seus lugares de origem e não ver nada de novo corremos o risco iminente do turista sair frustrado. Somos mesmo um povo com costumes de vira latas muscais?

Saibam que é uma enorme satisfação quando alguém diz que a Bahia é a Terra do Axé!

Postado por Welber Santos