Cazaquistão mata dezenas em protestos, e Rússia acusa estrangeiros por crise

IGOR GIELOW (FOLHAPRESS) – O governo do Cazaquistão anunciou ter matado dezenas de manifestantes que atacaram prédios públicos e tomaram o aeroporto de Almati, a principal cidade do país, na repressão aos maiores protestos já vistos na principal ex-república soviética da Ásia Central.

A crise parece, e só parece, dado o apagão informativo no país, algo mais controlada nesta quinta (6). Patrulhas com blindados foram registradas em Almati e outras localidades. Mas houve também novos tiroteios registrados e ações como sabotagem em linhas de trem relatadas, o que dificulta a avaliação correta do cenário.

Na praça central da cidade, segundo a agência Reuters, havia cerca de 300 pessoas reunidas ao longo do dia, alternando o espaço com forças de segurança -mas sem o choque explícito dos dias anteriores.

Também nesta quinta chegou ao país o primeiro contingente de paraquedistas da Rússia, vanguarda de uma força multinacional da aliança OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), dominada pelo Kremlin, para apoiar o governo cazaque.

O apoio militar, segundo a mídia russa, deve ser de 3.000 homens com blindados, fora reforços armênios e belarussos. Além disso, segundo disse à reportagem um consultor político próximo do Kremlin, forças especiais e da polícia de choque Omon já estão a caminho do país, entrando pelas regiões dominadas por russos étnicos (18% dos 19 milhões de habitantes).

A intervenção se dá a pedido do presidente Kasim-Jomart Tokaiev, que na véspera, quando a situação do país se deteriorou, dissolveu o governo, tomando uma série de medidas para tentar asseverar sua posição -em 2019 ele substituiu o ditador Nursultan Nazarbaiev, que continua a ser o “pai da nação” aos 81 anos e aparentemente agora perdeu poderes.

Os relatos são esparsos e inconfiáveis. Há um apagão informativo no país, que puxou o plugue da internet e da telefonia celular locais na quarta (5), quando atos que começaram localizados no domingo (2) contra o aumento do preço de combustível se tornaram um prenúncio de revolta popular.

Assim, coube à TV estatal dar o número impreciso de vítimas, que ganhou acuidade no balanço do lado do governo: morreram, segundo ela, 13 policiais, com 353 feridos. Houve também 2.000 prisões. Não há detalhes, mas as vítimas citadas são de Almati, embora tenha havido protestos em diversas cidades do país, inclusive na capital, Nursultan.

Na mesma linha oficialista, as agências russas Tass e Interfax disseram que o Ministério da Saúde local registrou mil feridos. Desses, 400 foram internados e 62 precisaram ir para UTIs em Almati. Imagens de carros queimados e prédios atacados surgiram aqui e ali.

O movimento rápido de Putin para conter a crise ocorre às vésperas da primeira das várias reuniões que irão discutir a colocação de tropas russas junto à fronteira da Ucrânia, para pressionar por uma solução em torno dos territórios rebeldes pró-Kremlin que desde 2014 dominam o leste do país europeu.

A sucessão de fatores torna a turbulência um prato cheio para teóricos da conspiração. Basicamente, há três cenários possíveis, nenhum deles de fato aferíveis na sua origem, mas que apontam para uma mesma resultante: uma provável vitória política do presidente russo. São eles:

1. Revolta legítima. Os protestos começaram numa região em que é amplamente usado o GLP (gás liquefeito de petróleo) como combustível de carros, semelhante ao dos táxis brasileiros. O governo liberou os preços no começo do ano, e a população se revoltou. Como ocorreu no Brasil em 2013 com o valor da passagem de ônibus, as manifestações se alastraram e ganharam corpo, com atos contra o governo e o pedido para que “o velho saia”, em referência à influência de Nazarbaiev.

2. Influência ocidental. A versão já vendida por Nursultan e por Moscou, que se manifestou nesse sentido nesta quinta, é de que os atos foram orquestrados por estrangeiros e que seus atores são “terroristas”. É a cartilha do Kremlin para enfrentar as chamadas “revoluções coloridas” do espaço ex-soviético, que sempre mesclaram desejo popular por democracia e autonomia com interesses de potências externas.

Nesse caso, a ideia é a de que a instabilidade foi orquestrada para enfraquecer Putin num flanco em que estava relativamente confortável, já que o Cazaquistão é um aliado, ainda que se equilibre entre concessões à China e flertes econômicos com os EUA na indústria petrolífera. O motivo seria tirar tração do russo na crise que se desenrola na Europa, onde posicionou mais de 100 mil homens perto da Ucrânia.

3. Influência do Kremlin. Mais maquiavélica ainda é a hipótese de a crise ter sido fomentada, ou ao menos ignorada ao ponto de desandar, por apoiadores do Kremlin em conluio com o governo cazaque. Nesse caso, do ponto de vista de Nursultan, haveria a oportunidade para Tokaiev de consolidar seu poder e sair da sombra do ex-ditador.

O fato de ele ter destronado Nazarbaiev do poderoso Conselho de Segurança e trocado chefes de segurança e inteligência na quarta dá tintas realistas a isso. Ainda restará a insatisfação popular, genuína pelo que se viu, para ele lidar.

Mais importante, Putin sai como um pacificador sem medo da “manu militari” pouco antes do embate diplomático com o Ocidente, que começa com uma reunião da Otan (aliança militar liderada pelos EUA) na sexta (7) e continua com três reuniões ao longo da próxima semana, incluindo duas com os dois lados presentes, para discutir a questão ucraniana.

Como é usual, a verdade deverá estar em algum lugar no meio dessas três hipóteses. Na prática, se o emprego de forças da aliança russa for relativamente permanente, Putin terá solucionado duas crises na Ásia Central em menos de um ano -em 2021, interveio politicamente para salvar o aliado Quirguistão.

A China, que tem trabalhado como parceira da Rússia contra o Ocidente e já operou em conjunto após a saída americana do Afeganistão, apesar de ter buscado aumentar sua influência na região nos últimos anos, aplaudiu discretamente. Pequim só desejou que o “assunto interno” cazaque tivesse solução rápida.

Assim, depois de ter enviado tropas para manter o cessar-fogo entre Armênia e Azerbaijão no ano retrasado, se tiver sucesso o Kremlin agora vira garantidor da estabilidade em uma região importante para o comércio mundial de gás e petróleo. O megacampo de Tengiz, gerido pela americana Chevron, já teve a produção reduzida nesta quinta.

As tropas enviadas deverão assegurar prioritariamente o funcionamento desses locais e de centros da indústria de extração de urânio. O Cazaquistão é o maior produtor mundial do metal radioativo, com 40% do mercado, e a crise já fez o preço dele subir 8% desde quarta.

Com isso, Putin poderá evitar a perda de profundidade estratégica, ou seja, a capacidade de se defender com vizinhos aliados ou neutros, já que não pode anexá-los como nos tempos imperiais ou soviéticos. É isso que move suas ações na Ucrânia e na Belarus, onde tem a ditadura em sua mão após atos contra o governo -as patrulhas aéreas conjuntas no país, anunciadas na quarta, não são casuais como símbolos.

Por fim, se a crise for controlada, isso dará musculatura e discurso aos russos no seu embate mais duro, a Ucrânia, independentemente de como alcançaram isso: ação direta, reação, ou combinação de fatores.

O reverso é verdadeiro: se a situação de violência se prolongar, os russos podem se ver atolados em uma nova frente, drenando energia do teatro europeu. Além disso, se o elemento de descontentamento popular for muito grande, poderá adicionar mais uma nação aliada em celeiro de sentimentos antirrussos, como ocorreu na Ucrânia e na Geórgia.