Não foi desta vez que o Brasil garantiu o seu primeiro Oscar. “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, perdeu a estatueta de melhor documentário para o favorito “Indústria Americana”, primeira produção da Higher Ground, criada por Barack e Michelle Obama no ano passado.

O filme, disponível no Netflix, mostra a chegada de uma fábrica chinesa nos Estados Unidos, e os choques entre as culturas de trabalho dos dois países.

Além do brasileiro, ele concorria ainda contra dois documentários sobre a guerra da Síria, “The Cave” e “For Sama”, e “Honeyland”, sobre uma apicultora na Macedônia do Norte.

“Democracia em Vertigem” recapitula os conturbados últimos anos da política brasileira, da eleição de Lula à ascensão de Jair Bolsonaro, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tudo isso a partir da perspectiva de Costa, cuja voz guia a narração em primeira pessoa.

Polarizador desde o seu lançamento na Netflix, em junho do ano passado, a indicação do filme ao Oscar só fez acirrar a divisão entre seus apreciadores e detratores, em geral identificados com a esquerda e com a direita, respectivamente.

Assim que o título foi indicado oficialmente – ele havia sido pré-selecionado em dezembro passado-, os ex-presidentes Lula e Dilma, que aparecem em cena, elogiaram a escolha da Academia em comunicados concluídos com “a verdade vencerá”.

Já o presidente Jair Bolsonaro (Aliança) embarcou na falas de seu ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, e ironizou a indicação, afirmando que o documentário deveria ter sido indicado na categoria de melhor filme de ficção.

“Para quem gosta do que o urubu come, é um bom filme”, disse ao jornal Folha de S.Paulo em janeiro, admitindo depois que não havia assistido à produção pois não perderia tempo “com uma porcaria dessas”. A diretora não deixou barato, e republicou a notícia do jornal no Twitter acompanhada da frase “É como ser nomeada uma segunda vez em menos de 24 horas”.

Os ânimos se acirraram ainda mais à medida que a data da cerimônia se aproximava. Na segunda passada (3), a Secom, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, usou seu Twitter oficial para atacar Costa, chamando-a de “militante anti-Brasil”.

As críticas foram motivadas por declarações que ela deu numa entrevista à PBS, emissora pública dos Estados Unidos. “É inacreditável que uma cineasta possa criar uma narrativa cheia de mentiras e de previsões absurdas para denegrir uma nação só porque ela não aceita o resultado das eleições”, diz um dos posts, escrito em inglês.

Outro é um vídeo, este em português, em que a Secom classifica como fake news várias afirmações de Costa.

Segundo a advogada Mônica Sapucaia Machado, especialista em direito administrativo ouvida pela reportagem, os tuítes da Secom ferem a Constituição. Isso porque ela dita que administração pública deve ser orientada pelo princípio da impessoalidade, ou seja, não deve ser um instrumento de opinião sobre determinadas obras culturais.

Costa também se pronunciou, e qualificou a atitude da Secom de antipatriótica.

Para Machado, os posts da pasta avançam o sinal vermelho ao expor a artista, “a ofendendo, o que não está autorizado à administração pública em nenhuma hipótese”.

Até o jornalista Pedro Bial se envolveu numa controvérsia por causa do filme. Em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, ele afirmou que o filme era “uma ficção alucinante” que tinha provocado muitas risadas nele, e que a narração em primeira pessoa da documentarista era miada e insuportável.

Ele não pediu desculpas, mas disse que muitos de suas declarações foram tiradas de contexto num artigo publicado no jornal O Globo neste domingo (9).

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)