Minas Gerais virou terra de registro de desastres nos últimos anos. Depois dos rompimentos de duas barragens de mineração, com quase 300 mortos, o estado teve mais 56 vítimas em decorrência das chuvas na última semana.

Em meio às várias histórias de soterramentos, afogamentos, resgates de risco e famílias que perderam tudo, a experiência dos bombeiros e da Defesa Civil em campo ajudou a mitigar as consequências.

Estado com o maior número de municípios no Brasil (853), Minas já incluiu 196 deles no decreto estadual de situação de emergência pelas chuvas.

A geografia com morros e serras e a presença das barragens em várias regiões levaram à criação de um grupo dos bombeiros especializado em enchentes, soterramentos e desabamentos, em 2014. Ocorrências pouco recorrentes, mas com grande poder de destruição.

A ideia da Companhia de Busca e Salvamento, parte do Batalhão de Emergências Ambientais em Resposta a Desastres (Bemad), é se deslocar facilmente para áreas que não possuem unidades fixas, inspirado em forças-tarefa dos Estados Unidos.

O primeiro grande desafio veio em outubro de 2015, com o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana. O maior desastre ambiental do país, onde morreram 19 pessoas.

“A gente fazia um treinamento pesado na área de deslizamento, enchente e inundação. Mariana colocou à prova tudo o que estávamos treinando. Da pior maneira possível, conseguimos validar o que estávamos fazendo”, diz o capitão Leonard Farah, comandante da companhia.

Antes ainda da criação oficial do grupo, quando a ideia ainda era embrionária, eles atuaram nas chuvas da região serrana do Rio de Janeiro, em 2011. Em 2014, fizeram resgates no rompimento de uma barragem da mineradora Herculano, em Itabirito, na região metropolitana de BH.

Farah foi o idealizador do grupo, que hoje conta com 50 homens, o equivalente a um quarto do Batalhão. Com a visibilidade dos trabalhos em Mariana e no rompimento da barragem, em Brumadinho, passaram a ser procurados por bombeiros de outros estados e de fora do país, como argentinos e israelenses.

Em 2019, a companhia teve a primeira missão internacional, ao ser enviada para ajuda humanitária em Moçambique, depois da passagem do ciclone Idai. A chegada de outro ciclone, o Kenneth, fez com que ficassem outros 20 dias.

O treinamento especial, explica Farah, dura dois meses. Com foco no preparo psicológico, os militares são levados ao limite com privação de sono, líquido e alimento, em simulados que passam de 30 horas. “Não é um serviço em que você trabalha 24 horas e vai descansar. São dias seguidos. Muitas vezes, os bombeiros têm as técnicas para fazer o resgate, mas não têm as técnicas de continuidade dessas operações. O militar que não está preparado para isso pode se machucar”, diz o capitão.

Com as chuvas das últimas semanas, o grupo atuou principalmente em Belo Horizonte, atendendo aos deslizamentos de terra. A maioria das mortes, 42, foram causadas por soterramentos. Presidente da Associação dos Bombeiros Militares do RJ (Abmerj), o subtenente Mesac Eflaín, diz que as corporações se destacam pela peculiaridade de cada estado e que a integração entre os estados é comum.

“Assim como SP é reconhecido pela atuação em incêndios, MG, de 2012 para cá, teve desastres ambientais que contribuíram para o desempenho nessa área. Fez com que aprimorassem tempo de resposta, cursos de busca e salvamento, socorro a vítimas de enchente e soterramento”, diz.

Os trabalhos dos Bombeiros são parte de um ciclo que conta ainda com a Defesa Civil estadual, que também aprendeu nas experiências das tragédias recentes em Minas.

Em casos de desastres, como agora, a corporação tem um protocolo padrão estabelecido, que inclui priorizar a retirada de pessoas de áreas de risco e a instalação de um gabinete de crise e posto de comando.

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS)