Ao longo dos anos, as quartas-feiras, em Ipirá, tornaram-se dias solenes. Acordava cedo para acompanhar Dona Zil na sua ida à feira ou então era o dia do café da manhã mais aguardado. Uma volta no Mercado da Farinha para comprar algumas coisas. Lá, uma passadinha na barraca de Seu Calmerindo da farinha e fazer a média com dona Teresa (pais do meu sempre cunhado Renato), depois ir na barraca de Seu Agenor e dona Maria da Caboronga (fiquei triste em saber que eles deixaram a Caboronga), para pegar as bananas, jaca e a melhor parte que eram os beijus moles, enrolados na folha de bananeira, ainda quentinhos. Êta que a boca encheu de água agora!

A pior parte era mamãe pechinchando em toda barraca que passava, eu morria de vergonha. Hoje sou pechincheiro igual a ela (é o cumprimento da música “Como nossos pais”, tão bem cantada na voz de Elis Regina), ainda mais depois que me tornei pai de cinco filhos. É muita boca pra dá o di comê meu povo! Cortar o cabelo neste dia na tenda de Pedrinho, nem pensar! Tinha gente demais esperando. Comer algum quitute feito por “Gigi” na lanchonete de Fernandinho, a mais requintada da época, também não dava.

Tudo girava em torno da Praça José Leão dos Santos, inclusive os lugares proibidos, como a “Rua do brega” e o cinema de Miro, que transmitia os clássicos do pornô. Debaixo do pé de Oiti, circulava o povo do Malhador, Umburanas, Rio do Peixe e adjacências. Cada coisa no seu devido lugar, com seus falares e seus códigos populares. Tinha tudo na feira de Ipirá, do couro ao corte de pano, da galinha ao peru, da batata à jaca.

Mas convenhamos, a pior coisa é quando uma cidade pequena resolve querer imitar a grande, como que se camuflar de cidade grande trouxesse alguma vantagem, além de só antecipar certos problemas crônicos que elas possuem. E assim, veio a famigerada transferência de local da feira.

Tá certo que o mercado de carne era um nojo, ambiente completamente insalubre, hoje transformado em Centro Cultural Elofilo Marques. Porém, em vez de organizar as barracas, padronizá-las, espalhar lixeiras a cada dois metros, ensinar o povo a “ser gente”, fizeram aquilo que os políticos mais gostam de fazer: construir obras faraônicas, na maioria das vezes SUPERFATURADAS, com suas respectivas placas de inauguração para deixar registrado o seu feito. No caso desta obra em específica, remete mais as areias do deserto do que as obras do Faraó.

Que obra feia e mal feita!
Deste modo, os gestores escolheram um extremo da cidade, como sempre, sem ouvir a população e construíram um novo espaço para a feira livre, deplorável por sinal, o que inviabilizou completamente o acesso e a mobilidade das pessoas, principalmente dos idosos. Um espaço no meio de uma “baixada”, perto de um esgoto que nunca foi saneado, que em nada incentiva os ipiraenses a irem fazer compras lá, muito menos os visitantes que vem de fora. Ou seja, perdeu-se o charme de se ir à feira e fazer compras naquele local tornou-se um ato mecânico e porque não, insalubre.

Acabaram com as “prosas”, os encontros, as fofocas, se bem que estas não acabam tão fácil (risos), as paqueras, o comércio e A PRÓPRIA FEIRA. Imagina você visitar Belo Horizonte e não dar um pulo na secular feira hippie próxima a Praça da Liberdade. Ir a São Paulo e não provar da comida japonesa na feira do bairro da liberdade; comer sanduiche de mortadela no Mercado Municipal e perder o brigadeirão da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, no sábado à tarde, a feira mais “bafon” da paulicéia. Mas Ipirá tinha que ser diferente, não é mesmo?

E agora me saíram com uma nova, mudar o dia da feira. Isso! Vamos! Destruam toda a nossa SINGULARIDADE! O que estão esperando? Por certo imaginam que Ipirá tem que ser igual às outras cidades do seu entorno e realizar a sua feira livre no sábado. Na realidade, a proposta é deixar a cidade ainda mais estagnada, acabando com seu diferencial. Essa alteração fará com que todos os pequenos comerciantes do “dia de feira” fiquem vivendo de bolsa família e dos demais programas “assistenciais” do governo. E assim, AUMENTANDO A DEPENDENCIA DAS PESSOAS EM RELAÇÃO À PREFEITURA e consequentemente, dos políticos. Quanto mais dependentes, mais gente em suas mãos, MAIS VOTOS PARA SEREM CONTABILIZADOS.

Acho que nossos políticos não querem pular de Maquiavel (O Príncipe) para Boa ventura Santos (A justiça popular em Cabo Verde, O direito dos oprimidos, Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade). Mas para que nossos políticos desejariam entender destes teóricos da política e da sociologia? O bom mesmo é pular de jacu para macaco ou de macaco para jacu, de acordo com as conveniências ou as cifras ($$$) do momento.

Reconheçam, mudar a feira de lugar foi um dos maiores equívocos dos últimos tempos. É necessário perceber este DESATINO, erro, disparate. Acho digno trazê-la de volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído – a praça do mercado, fazendo as adaptações necessárias, com sacrifício e garra. Nas principais cidades do mundo e olha que conheço várias delas, como Londres, Madrid, Lisboa, Roma, Berlim, Veneza, Paris, nas quais É CHIQUE IR A FEIRA. É algo que faz bem as pessoas e todo mundo sai ganhando – tanto quem vende como quem compra.

Entretanto, a moda de Ipirá agora são as grandes lojas ao lado da BR, assim como já o foram escolinhas, farmácias, padarias, lojas de móveis, pizzarias e até funerárias. Meu povo, deixa de querer imitar o outro e entrar nessa concorrência desleal que com o passar do tempo só dará para se ganhar apenas para sobreviver e olhe lá. A PALAVRA DO MOMENTO É INOVAÇÃO. Quer ver uma coisa, Ipirá não tem uma CAFETERIA onde possamos desfrutar de vários tipos de cafés, sucos, com doces e salgados finos, num lugar projetado e aconchegante, num fim de tarde. Fica a dica! E NÃO ESQUEÇAM DE DEVOLVER A NOSSA FEIRA!

Por: Ricardo Sampaio
Advogado e Professor de Direito