Uma fiscalização do Ministério do Trabalho da condição análoga à de escravo resgatou 81 trabalhadores nesta situação em 2000. Francisco das Chagas da Silva Lira, de 38 anos, foi um dos resgatados da fazenda Brasil Verde, localizada em Sapucaia, no Pará.

Francisco narrou ao jornal Folha de S. Paulo a rotina de violência e abuso vividos durante os anos em que passou como escravo. Ele diz que foi convidado a trabalhar no local após o convite de um aliciador, apelidado ‘Meladinho’. Foi oferecido um salário mínimo (na época, R$ 151) pelo cuidado do pasto, gado, alojamento e equipamentos de trabalho.

“Na necessidade, você aceita tudo. Fui para o mundo com outros desempregados aqui de Barras (PI). A intenção era mandar dinheiro para a família. Viajamos dois dias de ônibus e trem, sempre à noite. Quando chegamos na Brasil Verde, era tudo diferente”, disse.

O ex-trabalhador escravo contou que o alojamento era, na verdade, uma lona. Sem paredes, fogão, banheiro ou luz elétrica.

“Um fiscal vigiava a gente o tempo todo. Às 4h da manhã, ele colocava os holofotes (farol) do carro dentro do barracão. Todos os dias, eu preparava o café da moçada. Se a gente não fizesse, não comia. Cansamos de andar até 20 quilômetros à pé para chegar ao trabalho, com chuva ou sem”, lembrou.

Francisco disse que um dos trabalhadores fez a conta e afirmou que cada um deles ganhava R$ 0,75 por dia de serviço.

“Parávamos por volta de meio-dia para comer. Era arroz com mandioca, fria, sem gosto. Como a gente comia no tempo (à céu aberto), a água misturava na marmita. Nem tinha apetite para comer aquilo ali. Trabalhávamos até anoitecer”, contou.

Segundo Francisco, o pior dia vivido na fazenda foi quando um funcionário quis queimar um trabalhador.

“Éramos 12 trabalhadores rurais no grupo. Falei que o cabra estava mal, nem conseguia levantar da rede. Daí o fiscal ficou bravo. Com um pedaço de ferro, pegou uma brasa e partiu para queimar o menino. Eu disse para ele: ‘Não leve, não. Se levar, você morre’. O rapaz já era escravo, ainda ia ser queimado por um tição de fogo? Você não faz isso com ninguém, nem com bicho. Se machucasse um de nós, os outros iam reagir. E os fiscais tinham armas. Ia dar o pior de tudo. Ele deixou a brasa, mas foi até a rede e sacudiu para o cara levantar”, disse.

O trabalhador rural foi resgatado pela Polícia Federal. Franscisco conta como os funcionários da fazenda pediram que a situação fosse mascarada.

“Vocês vão lá e, se perguntarem alguma coisa, diz que está tudo bem’. Na hora pensei: ‘Já sei por onde começar, a vez que quiseram queimar o menino’. Lembro também de ter falado: ‘Quero ir embora, não aguento mais’.”, afirmou.

Em seguida, narrou como foram os dias após o resgate, onde os trabalhadores foram levados a um barracão pelos agentes em um carro de boi.

“Lá, disseram que não trabalhávamos mais na fazenda e que deveríamos ficar juntos até o dia seguinte, quando voltariam para nos buscar. Eles precisavam acertar o transporte, acomodação e alimentação para 82 pessoas. Aconselharam a não sair do barraco e não andar sozinho, porque os donos poderiam querer se vingar. Você acha que alguém dormiu naquela madrugada?”, indagou.

No fim do relato ao jornal, Franscisco faz uma reflexão sobre a situação vivida como escravo.

“Já tinha ouvido falar de trabalho escravo na televisão, mas pensava que escravidão era castigo para quem faz mal ao outro. Mas não. Escravo é sofrer, passar fome, necessidade, ser mandado toda hora. Não quero uma vida de escravo para ninguém”, conclui.

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