Jogar futebol. Sem a mínima dúvida, essa é a resposta que todas as crianças dariam diante de pergunta tão óbvia. Está correta? Sim, claro que está! Pelo menos de acordo com o gabarito que os adultos lhes oferecem.

Estive muito tempo incomodado com essa resposta, até que aceitei jogar para escanteio minha teimosia e passar a procurar o porquê dela estar absolutamente correta.

Simples. É mais fácil jogar futebol e virar estrela do Barcelona, que estudar dias e noites, ter de aguentar chefes e virar professor, ou advogado, ou nem emprego encontrar.

Bem, de minha parte, bola fora! Eu estava errado. Atletas de alto desempenho acordam cedo, suam a camisa, perdem feriados, fazem cirurgias e fisioterapias, sofrem pressão da imprensa e perdem o emprego via um simples telefonema. Nada, nada fácil!

A resposta devia ser outra: jogadores de futebol ganham muito mais do que quem estuda. Ah, agora sim! Como (quase) todos querem ficar ricos, havia encontrado a resposta. Para provar que eu estava certo, resolvi comparar jogador de futebol com professor, afinal, quando se fala em estudar, a primeira imagem que nos vem à mente é a de um professor.

Pois bem, não é possível conceber que uma criança veja, na televisão ou na internet, um jogador profissional de férias em uma praia paradisíaca e um professor dando aula para mosquitos no meio da Amazônia e não queira ser jogador.

Então, estava resolvida minha inquietação? Não. Gol contra. Eu estava comparando coisas completamente diferentes, quase medindo distância em litros, quando coloquei lado a lado um jogador de nível mundial e um professor de atuação local. Se, do contrário, eu houvesse comparado um professor de Harvard com um jogador de várzea, minha conclusão seria a de que as crianças escolheriam ser professores, que, sabemos, é uma escolha impossível.

Diabos, a culpa é das crianças então, que não sabem o que é melhor para elas?

Não, hoje, penso que não. A culpa é sempre dos adultos. Os adultos valorizam mais jogadores de futebol que professores. É intuitiva a conclusão de que as crianças escolherão as profissões mais valorizadas pelos pais, pelos tios, pelos avós, pelos vizinhos…

Ah, agora ficou tudo mais fácil. A culpa é dos adultos da televisão, dos que exibem vídeos no Youtube, que inundam a cabeça das crianças com bobagens, que fazem Neymar ter milhões de curtidas a mais que o educador Paulo Freire? Parece-me que também não. Neymar e Paulo Freire estão igualmente distantes de qualquer criança de uma cidade pequena. É preciso encontrar um culpado mais próximo delas.

A distorção que valoriza mais quem colhe (o jogador) do que quem planta (o professor) está no dia a dia, no comentário inocente na mesa na hora do almoço, vindo da boca de pessoas comuns. Quanto mais fácil é, entre uma colherada de feijão com arroz e outra, inocentarmos o jogador que agride o companheiro de profissão, mas massacrarmos o professor que é exigente com uma criança, com nossa criança? E, se aqui chegamos à conclusão de que nosso problema está no dia a dia, que bom, porque, quem sabe, alguma mudança seja possível.

Vejamos nossa Ipirá, por exemplo. Nela, para que “estudar”, em vez de “jogar futebol”, apareça um dia como resposta à nossa pergunta inicial, um bom começo talvez seja criticarmos a presença de crianças novinhas em festas desregradas de jogadores de futebol profissionais ipiraenses, que visitam a cidade de férias apenas, e passarmos a elogiar quando estas mesmas crianças estiverem frequentando uma escola nominada “Professora Hildinha”, em merecida (já atrasada) homenagem a quem educou gerações de estudantes. É só um começo, é verdade. Mas já não seria um gol de placa?.

PS.: Se, nas ponderações acima, raciocinássemos com uma menina, em vez de com um menino, poderíamos trocar a pergunta inicial por “desfilar ou estudar? ”, a profissão de jogador de futebol por modelo e Neymar por Gisele Bündchen. No mais, mantenham-se todas as vírgulas.

Por Douglas Nascimento Santana
Médico e Diplomata Brasileiro