A lama que jorrou da barragem de Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, destruiu pelo menos três distritos: Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira. Até hoje, quem perdeu a casa sonha pela construção de novas comunidades, iguais àquelas que foram devastadas pelo rejeito de minério. Mas, a Fundação Renova, responsável por fazer os três reassentamentos, reconhece que as obras estão atrasadas.

Enquanto o “Novo Bento” não fica pronto, o vice-presidente da associação de moradores, Mauro Marcos da Silva, espera os finais de semana para voltar ao local onde viveu quase a vida toda. A casa dele era a mais alta do antigo Bento Rodrigues e, mesmo assim, foi completamente destruída pela lama. Como Mauro, existem outras cerca de 30 pessoas que se reúnem toda a semana em casas que parcialmente destruídas pela lama. O grupo ficou conhecido como “Loucos por Bento”.

O sonho dessas famílias é ter de novo a vida que tinham antes do dia 5 de novembro de 2015. Mas ele diz que está perdendo a esperança, porque o prazo está se estendendo demais. “Eu acreditava que ia demorar um pouco. Mas não um prazo tão longo. E eu acredito que esse prazo ainda vai se estender por muito tempo”, afirmou Mauro.

De acordo com a Fundação Renova, 225 famílias esperam o momento em que poderão retomar suas vidas no reassentamento de Bento Rodrigues. A data pactuada com a Justiça para a entrega da comunidade é agosto de 2020. Mas o porta-voz da Fundação Renova, André de Freitas, informou novo atraso.

“A nossa previsão é que as estruturas de Bento fiquem prontas até o final do ano que vem”, disse.

As obras de Bento Rodrigues começaram em julho deste ano e estão mais avançadas entre as três comunidades. Por enquanto, 25 imóveis estão em construção. A comunidade terá igrejas, uma escola e outros equipamentos públicos. Obras de infraestrutura, como drenagem, redes de água e esgoto estão em fase de execução.

Os projetos das casas são feitos em conjunto com os moradores, segundo a Fundação Renova. O arquiteto responsável deve levar em conta as condições de habitabilidade e acessibilidade e, ainda, o modo de vida de cada família. Só então, o projeto é encaminhado para emissão de alvará pela Prefeitura de Mariana.

Obras em Paracatu de Baixo

Em julho, a Fundação Renova começou as obras para estruturar o terreno do novo Paracatu, que vai receber 140 famílias.

A representante dos moradores de Paracatu de Baixo, Luzia Queiroz, teme que após Bento Rodrigues ficar pronto, as outras famílias sejam esquecidas.

“Inaugura, faz aquele ‘boom’ na mídia, e depois larga o resto comendo poeira. Esse povo nosso vai aguentar ficar aqui mais um ano, sendo que uma vai ser reassentada antes? A gente entende que se tudo destruiu no mesmo dia, tem que reassentar no mesmo dia”, comentou.

Obras em Gesteira

Para os moradores de Gesteira, um distrito da cidade de Barra Longa, a entrega das novas casas nem está no horizonte. O território que vai receber a comunidade, também destruída pela lama, foi comprado, mas a Fundação Renova informou que agora aguarda os moradores elaborarem o projeto da cidade, com o auxílio de uma assessoria técnica. Trinta e sete novos lares serão construídos no local.

Para a representante dos moradores de Gesteira, Simone Silva, a Renova não dialoga com as famílias.

“Se vocês perguntarem, eles vão dizer que o processo coletivo, com a comunidade, é mais demorado. Da nossa parte não. É demorado porque a Fundação Renova não comparece no território, e quando ela comparece, não é com as pessoas que têm o poder de decisão”, afirmou.

A Renova garante que não tem qualquer intenção de atrasar essa entrega e trabalha para cumprir o prazo. O arquiteto Alfredo Zanon, representante da instituição, disse ainda que a participação dos atingidos faz com que o processo seja mais lento.

“Por exemplo, a escola [de Bento Rodrigues] é a primeira edificação que está sendo construída porque ela não depende de vários agentes externos. A construção das casas depende do projeto. Ela é participativa, tem que escolher o acabamento, o tipo de escada, de telhado. Todos aqueles projetos que não tiverem problemas vão ser priorizados. Nós não temos intenção nenhuma de barrar nenhum atingido de decidir aquilo que é do seu anseio”.

Reconstrução e reassentamento familiar

Os atingidos apontam também que a Renova ainda nem terminou de reconstruir as casas que foram parcialmente destruídas pela lama. Uma das casas que precisa de obras é a do pedreiro Anderson Cerqueira. Ele morava com a família às margens do Rio do Carmo, em Barra Longa, e a passagem da lama abalou a estrutura da residência.

Desde 2015, Anderson mora em uma casa alugada pela Renova. A antiga casa dela já passou por intervenções. Mas agora a obra está parada, só as paredes foram erguidas. Falta todo o resto. O pedreiro teme que ainda tenha esperar um bom tempo para voltar a viver às margens do rio.

“Por dentro você não consegue andar porque é tudo mal feito. A frente está no fundo, o fundo está na frente. A casa está horrível. Tanto que eles estão achando que vão ter que demolir ela para refazer”, contestou.

Também há famílias que não querem viver nas novas cidades esperam para receber moradias definitivas. Uma dessas pessoas é Wesley Isabel, ex-morador de Bento Rodrigues. Depois de perder a filha Emanuelle, de apenas 5 anos, na lama, e se separar da esposa, ele sonha viver algo parecido com o que tinha em Bento Rodrigues, com os três filhos.

“Ter a vida que eu sempre sonhei, que é uma casinha pequena, fogãozinho à lenha, pocinho de peixe. E ver meus filhos crescerem no meio disso tudo”, concluiu.

Por Cintia Paes, Patrícia Fiúza e Laura Marques, G1 Minas e Rádio CBN — Belo Horizonte — Foto: Patrícia Fiúza / G1